Meu mais antigo hobby

Luciano de Oliveira

Luciano de Oliveira

1 de agosto de 2026

Meu mais antigo hobby

O painel do Codex aponta 92% como minha cota de uso restante. É suficiente para que eu peça quase qualquer projeto de software que eu consiga imaginar: um sistema de cadastro, uma aplicação em Elixir, um protótipo inteiro. Ainda assim, quando abro o computador para pensar no próximo projeto, quase nunca sei o que pedir.

Programar sempre foi um hobby para mim. Desde criança, era uma forma de diversão: criar sites, experimentar linguagens de programação diferentes, começar projetos que não precisavam provar sua utilidade antes de existir. Depois do trabalho, esse impulso continuava. Eu voltava ao computador pela vontade de descobrir o que poderia fazer.

Foi desse hábito que nasceram diversos pequenos projetos. Em 2022, criei o Meu Santinho. Também era ano de eleição nacional e eu comecei a explorar a API de Candidatos do TSE. Em poucos dias, fiz uma prova de conceito: um usuário podia selecionar os candidatos que iria votar e gerávamos um santinho em formato de imagem para ser compartilhado no Instagram. Depois chamei alguns amigos para terminar o app e lançamos na Web.

Ver algo que você criou sendo usado é sempre um grande prazer. Mas hoje, quando eu posso escrever uma página descrevendo esse mesmo software e ele aparece na minha frente, percebo que sinto falta do processo de criação. Modelar cada parte, descobrir os problemas que surgiam e programar linha por linha também era um prazer.

É possível programar manualmente como antes, nada me impede. Mas não é a mesma coisa. Quando sei que um agente pode atravessar o mesmo caminho por mim em instantes, escolher deliberadamente algo menos eficiente é difícil. Especialmente quando a alternativa está a uma frase de distância.

Por um lado, eu sinto um poder inefável em conseguir programar tecnologias que não sou proficiente (ex: apps nativos iOS, pipelines de dados com Airflow, sistemas realtime com Erlang). Por outro, no momento em que percebo que os desafios serão resolvidos pelos agentes antes de eu sequer vê-los, desanimo um pouco.

Teve uma época em que eu estava bem curioso em aprender programação iOS com Swift. Assisti uns cursos, achei o youtuber mais interessante que falava sobre o assunto, e comecei a fazer pequenos apps no Xcode. Demorava para eu fazer um login e uma tela de lista, mas esse processo era muito gratificante.

Era gratificante por dois motivos. O primeiro era o simples fato de eu conseguir fazer, com minhas próprias mãos. O segundo motivo era que aquilo era o prenúncio de algo maior. Eu me sentia numa preparação. Hoje, eu vejo como totalmente plausível eu fazer um app iOS completo, sem precisar passar pelo app de login e lista. Por que não estou feliz com isso?

A curiosidade funciona quando existe uma lacuna de conhecimento misteriosa, mas alcançável. A gente se engaja quando sente progresso em direção a ela. Quando a resposta parece disponível antes mesmo da pergunta, a curiosidade perde a urgência. Tenho a impressão de que foi isso que aconteceu com a minha relação com a construção de software: ela perdeu parte do mistério.

Por isso que olho pro Codex e não sei o que pedir: a resposta parece já estar lá.

•

Ler mais