Sobre o São João de Campina Grande e algumas propostas

Luciano de Oliveira

Luciano de Oliveira

8 de julho de 2024

Sobre o São João de Campina Grande e algumas propostas

O Maior São João do Mundo é o espetáculo que Campina Grande oferece ao Brasil. São mais de 30 dias de festa, com entrada gratuita. O lugar é o Parque do Povo (PP), pavilhão no centro da cidade com mais de 200 quiosques, restaurantes (visto no Mapa do PP) e ativações. O palco principal conta com a apresentação de artistas locais e nacionais. Destacando o forró, mas contemplando outros estilos populares como rap e eletrônica. Ao longo do Parque, palcos menores recebem trios pé-de-serra, bandas e repentistas – inclusive na tradicional Pirâmide, espaço coberto que é parte da história da festa.

Para quem não conhece um São João nordestino, eu quero explicar porque é tão especial para nós. A festa que Campina Grande cria é uma das muitas belezas escondidas no Brasil. Espero que alguém termine o texto com mais vontade de ir à Paraíba no próximo ano. Nos últimos dias, além de aproveitar a festa, conversei com pessoas excelentes. Escutei boas ideias sobre o futuro do Maior São João do Mundo e no fim do texto quero colocar luz sobre elas.

O Parque

Por mais que os shows orientem o ritmo da festa, o São João é maior que o palco principal. O Parque do Povo começa a ser preparado em março para se transformar numa cidade cenográfica que recebe milhões de pessoas em junho. Este ano, especialmente, uma reforma para ampliação do espaço conectou o Parque Evaldo Cruz através de um túnel que passa por uma rua da cidade. A estrutura montada homenageia e relembra a história da cidade de Campina Grande com licença poética para as diversas ativações de marcas patrocinadoras.

Toda a área do Parque fica cercada durante o São João, com a rua Sebastião Donato sendo convertida diariamente em espaço pra festa. Os portões abrem para o público às 16:00 nas oito entradas onde agentes fazem revista obrigatória. Não é permitido entrar com bebidas. A capacidade máxima do local é de 73 mil pessoas, marca que é atingida nos dias dos maiores shows.

Assista no Instagram: São João de Campina Grande (@omaiorsjdomundo)

Após entrar no PP, você vive em outro universo. Em extensão, são cerca de 6 campos de futebol ou 15 minutos de caminhada partindo do Açude Novo, no ponto mais superior, até o palco principal que fica no final do Parque. O movimento começa no fim da tarde e atinge seu ápice por volta de meia-noite, horário da atração principal. O público é bem diverso, contemplando famílias, crianças e jovens que ficam até o fechamento dos portões (às 03:00).

Comidas e bebidas

A experiência culinária do Nordeste é um show por si só. Os restaurantes mais clássicos da cidade vendem carne de sol, macaxeira, arrumadinho e outros pratos típicos. Eu adorei o Bodódromo, que ofereceu o Bode In Box: caixinhas de baião-de-dois com opções de picanha e picado de bode. Também há quiosques de churros, crepe, milho verde e outros lanches, como a concorrida pizza de Banana Nevada da Gorlami. Curiosamente, não foi tão fácil encontrar pamonha ou canjica.

Para quem gosta de beber, não falta opção dentro do Parque do Povo. Além das bebidas de mercado, oferecidas em preço tabelado e apenas das marcas autorizadas, as barraquinhas vendem diversos drinks que você só encontra em Campina Grande. Não é difícil encontrar alguém com uma garrafa da Beba e Gammy, tradicional bebida das noites da cidade. Também há algumas marcas exclusivas do São João como o Bom que Dói. A cana com mel de rapadura, que era mais comum antes do controle de marcas autorizadas, ainda é vendida e vale a pena.

Praticamente todos restaurantes e vendedores aceitam pix, cartão e pagamento por aproximação.

Experiência nos Palcos

Depois de comer e comprar bebida, os forrozeiros do Parque do Povo curtem os shows dos artistas populares nos palcos culturais, quase sempre tocando forró. Esses palcos representam um movimento que precisa de força, mas definitivamente há música nordestina no Maior São João do Mundo. Bandas e trios de forró formam uma programação paralela ao palco principal. No Palco Zé Lagoa, nome que homenageia o programa de auditório “Forró de Zé Lagoa” que Rosil Cavalcanti transmitia nos anos 50, também escutei dois emboladores de coco que faziam versos sobrem quem passava.

No palco principal, o público geral divide espaço com o camarote (ingressos custam cerca de R$ 200,00 por noite), opção interessante para assistir um show com mais conforto. Subiram ao palco Elba Ramalho, Nattan, Magníficos e diversos outros artistas nos 33 dias de festa deste ano. As maiores atrações tocam nas sextas, sábados e domingos, ou especialmente na noite de São João (24/06). Fora o camarote, não há divisões físicas mas os grupos se dividem muito bem em seus espaços.

Banheiros

Os banheiros do Parque do Povo não são conhecidos por uma boa experiência. Distribuídos entre banheiros construídos e químicos, a manutenção trabalha mas é insuficiente em dias de maior lotação. A ampliação resultou na construção de banheiros melhores. Para quem busca mais conforto, há opções de banheiros privados que cobram por diária, além do camarote.

Segurança

Quando eu era criança, a insegurança do São João em Campina era um tema que preocupava. Não era nada novo: as brigas dentro dos forrós foram até assunto de várias músicas. O primeiro forró gravado por Luiz Gonzaga, Forró de Mane Vito, já narrava “Puxei do meu punhá, soprei o candeeiro, botei tudo pro terreiro, fiz o samba se acabar”. Mas isso é um retrato do passado. Algumas tradições vamos deixando nos versos das canções.

Hoje, o Parque do Povo é um local seguro. Há policiais, guardas e seguranças por todo o evento, tanto circulando como em estações fixas. O sistema de monitoramento, que conta com 265 câmeras, permite a identificação de mandatos de prisão em aberto por reconhecimento facial. Ainda ocorrem casos isolados de pequenos furtos e, tal como na orla de Copacabana ou em Londres, é bom tomar cuidado com seu celular.

Público

Mas nada disso seria possível sem o ingrediente principal: o Povo do Parque. A real magia do São João está nas pessoas que são a festa. Quem curte a noite, cria um grande carnaval – divertido e encantador. Quem trabalha por toda a cidade – dirigindo, cozinhando, recebendo – empenha zelo e calor nordestino que faz todo mundo querer voltar pra Paraíba. Biliu, à quem dedico esse texto, declarou: Quem vem à Campina, pede pra ficar, e assim tem sido.

A cidade, que trocou o centro econômico da Feira para o Shopping nos anos 90, tem todo incentivo pra se modernizar e parecer com uma metrópole. Mas – ainda bem – a forte tradição de um povo honesto e acolhedor nunca se abalou.

Programação Paralela

O São João em Campina também é maior que o Parque do Povo. Para ocupar as horas diárias, há várias opções: Salão do Artesanato; Vila Sítio São João; Vila do Artesão; festas particulares como Soul João e programação dos restaurantes. Para os dispostos a viajar, as opções são ótimas: do São João de Galante até a Festa do Bode Rei em Cabaceiras, o interior da Paraíba entrega uma experiência singular.

Propostas

Nas conversas pela cidade, o São João está sempre em pauta. Eu conversei e anotei algumas ideias sobre o futuro da festa e gostaria de compartilhá-las aqui.

Pois é meu povo bonito
Nosso São João terminou
Infelizmente passou
Nossas noites de fogueira
Os balões e as bandeiras
Nossas resenhas juninas
A festa mais nordestina
Deixa saudade em seu povo
E os relógios vão de novo
Com seus ponteiros contando
Pra que passe logo o ano
Pro São João voltar de novo

(Declamado por Juarez no Podcast Nordestino)

Agradeço à Gabriela Trindade e Beatriz Cunha pela edição.

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