Home

Reflexões sobre o forró no Rio de Janeiro

Luciano Júnior

Luciano Júnior

28 de abril de 2024


O Rio de Janeiro é uma cidade marcante para o forró. Casa de Luiz Gonzaga por quase 20 anos, abrigou também Jackson do Pandeiro, Marinês, Dominguinhos e, com eles, foi palco dos anos de ouro para os ritmos nordestinos. Em 2024, o Rio mantém acesa a chama do forró e eu descobri que ela pode ser ainda muito maior.

O primeiro forró que assisti, depois de me mudar em 2019, foi num bar em Botafogo. O espaço era pequeno, com ar-condicionado, e me surpreendeu com seu público: o mesmo jovem boêmio e alternativo da Zona Sul carioca. Tirando a zabumbeira, que descobri ser minha conterrânea da Paraíba, toda a banda era do Sudeste.

Alguns meses se passaram e crescia a vontade de descobrir mais sobre aquele mundo. Mas precisava resolver um defeito de fábrica primeiro: eu não sabia dançar forró. Mesmo tendo escutado em loop o DVD ao vivo de Mastruz com Leite quando criança; aprendido e tocado sanfona na adolescência; eu não sabia o mínimo para conduzir alguém numa dança.

O primeiro passo, então, foi procurar aulas de forró. Com poucas buscas no Instagram eu descobri que existiam algumas academia de dança e escolhi uma para começar. Fui bem recebido, com a clássica contemplação após dizer de onde sou, e em poucas aulas eu já estava dançando alguma coisa. Porém, eu já estava descobrindo algo fora do meu radar.

Mesmo nas aulas para iniciante, o casal de professores – cariocas – faziam algumas performances mais "avançadas" para animar e deixar a turma engajada. Entretanto, aquilo não parecia muito forró pra mim. Com mais passos e caminhadas que a apresentação de uma quadrilha junina na Pirâmide do Parque do Pavo, aquilo era o Forró Roots – um mix de forró, tango, samba de gafieira e intenções questionáveis.

A análise sobre o Roots (que não busca se denominar "raiz", mas sim homenagear festivais de forró como o Rootstock) é mais complexa do que consigo entregar hoje, mas a primeira grande diferença que senti da cena nordestina para carioca foi que as academias de dança influenciam fortemente o que é forró na cidade.

Quando levei alguns amigos do Nordeste para um baile (termo bem utilizado pelos dançarinos), escutei mais de uma vez: "Nossa, quantos giros.". Existe um certo acordo implícito que dançar bem significa fazer vários passos diferentes no salão, o que deixa algumas pessoas desconfortáveis para começar a dançar.

Eu aprecio o aprimoramento e o estudo da técnica, mas filosoficamente prefiro dançar e difundir o forró das salas de reboco, agarradinho, onde os giros e passos são presentes, mas não ofuscam a simplicidade de uma dança que nasceu pra juntar o povo e trazer alegria. Independente, reconheço o trabalho das academias e espero vê-lo prosperar ainda mais.

Em um dos primeiros bailes que fui, me deparei com outra diferença marcante. Durante as mudanças de bloco, o cantor falou: "Eu sei que vocês não gostam, mas vamos tocar um xotezinho agora" e logo foi acompanhado por alguns gritos de "Não, por favor" vindo do público. E, claro, fiquei confuso pois se tem uma coisa que eu não imaginava que divida opiniões era o ritmo de xote.

"Forró" tem dois significados principais: o evento/movimento cultural e o ritmo musical. Os 3 principais ritmos do forró são: o xote, o forró e o baião.

Não foi difícil entender o porquê. Devido ao mesmo acordo que dançar bem é fazer passos ornamentados, o xote, por ser mais devagar, inviabiliza dançar esses passos. Destaco que essa resistência não é algo tão forte, e varia dependendo da casa, mas foi interessante descobrir que isso era uma preocupação. Na Paraíba, dificilmente as pessoas pensariam nisso.

Para situar os não-nordestinos: eu me criei em Campina Grande, PB – terra do Maior São João do Mundo. Fora dos ~3 meses do meio do ano, pouco se fala de forró; pouco se toca de forró; e pouquissímo se dança de forró. Por mais que a maioria dos meus conterrâneos, se perguntados, falem da admiração pela música nordestina, o forró não faz parte do dia-a-dia da cidade. Pelo menos não até agora.

E esta foi minha primeira grande realização: No Rio, o forró é levado a sério. As pessoas têm opiniões sobre, se identificam como forrozeiras, e participam de uma cena noturna pulsante. No Rio, todo dia tem forró, evidenciado pelo agregador forronorio que diariamente posta o calendário de bailes.

Há forrós para todos os gostos e, ao longo dos últimos meses, eu fui visitar cada um deles. Existe um espectro de públicos que envolve idade, classe, e tolerância ao cheiro de maconha. O Democráticos, clube com mais de 100 anos na Lapa, recebe casais e dançarinos experientes no forró de toda sexta. Já o Havana 59, também na Lapa, atrai um público mais jovem com seu palco aberto à novas bandas e mistura de estilos.

Como muita coisa no Rio, os bailes começam tarde. 22 horas é quando a banda principal ataca, e o tempo anterior é preenchido por DJs que trazem um vasto repertório, também tocado no intervalo entre os sets. O show acaba entre 1 e 2 da manhã, exceto pelo clássico Forró da Glória, que só acaba quando o metrô abre no outro dia.

Um movimento interessante que descobri é o das rodas de forró. Tal como na roda de samba, o som é comandado por uma mesa de músicos que não trazem repertório pré-estabelecido e recebem artistas novos que engrandecem o show. A roda de Forró de Rabeca acontece toda quarta-feira no Armazém do Campo e recebe talentosos instrumentistas que tocam de Hermeto Pascoal até Buena Vista Social Club.

E, com certeza, o que mais me surpreendeu positivamente nessa jornada foi a reverência e admiração aos artistas e compositores nordestinos. Desde a primeira aula de dança, descobri que as playlists estão cheias de Luiz Gonzaga, Ary Lobo, Marinês, Trio Nordestino e diversos outros artistas que passaram despercebidos quando eu estava crescendo. Tive a felicidade de descobrir lindas canções, como Desabafo cantada por Júlia Vargas.

Conversando com os músicos e produtores culturais, muitos falam com nostalgia da época que "o forró bombava" e consideram que o movimento hoje está menor. Tal como em qualquer estado, a situação não é fácil para os artistas locais – que muito trabalham. Mas, pouco a pouco, novos projetos se iniciam e mais pessoas consomem forró.

Um dos novos grupos que se destaca é o Forró de Pife, que coloca o mesmo pife de Zabé da Loca como instrumento principal e traz um repertório que vai de Os 3 do Nordeste até Júlia Mestre, passando pelas músicas autorais da cantora Alulu Paranhos. O combate ao assédio no ambiente da dança é uma das pautas da banda, além de criar um ambiente convidativo para aqueles que não sabem dançar.

Outros projetos como o Baile da Lua, que une os instrumentais de Sivuca à música argentina, e o Piseiro Debochado (auto-explicativo), reforçam como o Rio de Janeiro continua sendo berço criativo para o forró brasileiro. O público, majoritariamente carioca, reflete os traços de quem está no palco e é acolhedor e caloroso – diferente de outros espaços da cidade.

Foi proveitoso passar por essa jornada e descobrir tanto trabalho legal sendo feito. Ao mesmo tempo, o reconhecimento vai mais para persistência dos artistas e produtores do que ao ambiente cultural em si. No futuro, quando o forró explodiu no Rio, há apoio público estruturado para incentivo a cultura; casas de show climatizadas e com capacidade maior de público; coletivos e associações dos artistas facilitam o trabalho de quem está começando; e empresas colaboram com o movimento do forró que alegra e balança a noite da Cidade Maravilhosa.